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Estabelecendo prioridades



Quem nunca se viu perdido entre inúmeros projetos e objetivos, sem ter tempo para todos eles, que atire a primeira pedra. É fato que sempre tentamos fazer mil coisas ao mesmo tempo e ir levando tudo como dá, mas chega uma hora que, ou a gente corta certos "gastos" de tempo, ou a gente enlouquece e perde o foco.

Querendo ou não certas coisas acabaram se tornando mais importantes do que outras ao longo do tempo, e as minhas prioridades de hoje certamente não são as mesmas prioridades de dois anos atrás, quando criei esse blog. Mas calma aí, não vou abandonar o Quase à Toa, até porque ele ainda é, de certa forma, prioridade, mas é o repeteco de sempre que vocês já conhecem: não consigo mais atualizar como antes, e agora preciso dividir meu tempo com outras coisas, como estudos e academia.

Pois é, são minhas atuais prioridades. Estudar (em dobro agora, já que falta menos de um mês pro Enem) e lutar contra esse corpo que sempre me incomodou, mas que só esse ano tomei coragem pra mudar. E é assim que vai ser, pelo menos até eu me ver matriculada na faculdade ou magérrima em um biquíni cortininha.

O blog entra nessa história como figurante, como aquele entregador de pizza que aparece no final da cena com três ou quatro falas. Não vai ficar de fora, mas também não vai tomar meu tempo como antes. E sim, montar um post e cuidar de um blog toma tempo pra caralho.

Vocês não vão se livrar de mim tão cedo, acreditem, mas até o final do ano a frequência de posts é essa e pronto. Ou é assim, ou é assim. Sem escolhas, sem desculpas, sem mais "ah, deixa eu mexer no blog aqui só um pouquinho" enquanto eu deveria estar estudando... A vida é feita de prioridades, e por enquanto eu já estabeleci as minhas.

O título desse blog nunca me pareceu tão irônico.



18 anos



Nesta passada terça-feira completei meus tão esperados 18 anos de vida. Se valeu a pena desejá-los tanto? Não, e isso é até óbvio.

Quando eu era mais nova esperava ansiosamente o dia em que eu seria enfim "dona do meu próprio nariz", o dia em que eu poderia fazer as coisas sem precisar de autorização, sem precisar mais de alguém assinando papéis por mim. A maioridade, a liberdade de poder entrar em qualquer festa, beber qualquer bebida, tatuar no braço qualquer frase boba que adolescente costuma tatuar. Aprender a dirigir, ganhar o mundo, viver como gente grande.

Mas que palhaçada.

O dia chegou. Virei a esquina e então já era 19 de Agosto, o que mudou afinal? Absolutamente nada. Continuo dependendo dos meus pais, assim como sempre, continuo dando satisfações e obedecendo as regras que todos me impõem. Não faço mais questão de entrar nas festas que tanto almejei, as bebidas tão "proibidas" eu sempre comprei, e a tatuagem vai ficar pra depois. Dirigir? Quando sobrar um dinheiro pra carta. Ganhar o mundo? Quando sobrar um dinheiro pra vida.

Viver como gente grande? Nos 19, quem sabe.

É engraçado pensar como um aniversário deixa de ser algo importante ao longo do tempo, mas ainda sou tão jovem que não sinto necessidade de me preocupar com isso. Na verdade sou tão jovem que não me preocupo com nada...

Ser tão jovem é um defeito incrível.



O bar



Era noite de sexta-feira, e como em tantos outros lugares do mundo ali acontecia uma festa. Aquela velha e habitual diversão de sempre: havia música tocando, pessoas espalhadas por todos os cantos, amigos conversando, casais apaixonados, comidas e bebidas. Nada que pudesse me surpreender ou fazer daquela noite uma data inesquecível, mas ainda assim valia a pena tentar aproveitar. Tudo corria bem a primeiro momento, até alguém sugerir pegar umas bebidas.

Nada contra as bebidas, também me rendo aos prazeres do álcool, só não estava afim de beber naquela noite e isso me possibilitou observar melhor a cena que acontecia na minha frente. O único bar da festa, um pouco pequeno e com meia dúzia de funcionários, sendo engolido pela multidão. Multidão capaz de esperar muito e pagar caro, apenas para suprir o vício de ter um copo na mão.

Não estou exagerando, acredite, eram dezenas de pessoas compactadas em uma fila que não existia, empurrando-se e exprimindo-se cada vez mais na competição do "quem pega bebida primeiro". Eram longos minutos para comprar uma ficha, e mais longos minutos para pegar o copo de fato. Não estaria mentindo se dissesse que alguém ficou uma hora esperando naquele balcão, provavelmente existe gente mais azarada do que nós.

Enquanto isso o show continuava, as pessoas dançavam, o público se divertia. Valia a pena perder uma parte da festa ali? Por que diabos era tão importante assim ter um copo de bebida? Talvez ninguém mais consiga encarar o mundo são, ou as pessoas simplesmente não tem mais coragem de serem elas mesmas. É pra perder a vergonha, não? As pessoas precisam do álcool pra fazerem aquilo que querem com uma "desculpa". É pra descontrair, é pra relaxar, é pra melhorar o humor... Beber pode até ser bem legal, mas não devia ser algo tão necessário. Não devia ser algo capaz de aprisionar e enlatar as pessoas na frente de um bar. Não devia ser prioridade.

O fluxo de pessoas ali só aumentava, a sede era insaciável. Calei-me e fiz questão de não expressar o quanto aquilo me perturbava, ao menos até agora. A vida seguiu seu rumo e a noite terminou sem superar minhas expectativas, como previ. Mas os fatos ainda atordoam minha mente e me fazem pensar naquilo que nos tornamos.

Nos tornamos escravos de um copo.



Algumas rimas pobres de luto

rosa preta

Partem,
como as folhas de outono que caem no chão
como pássaros que migram ao mudar a estação
como a chama da vela que queima até se apagar
As almas partem

Para qual lugar?

Deixam para trás toda sua história
tudo o que foram, tudo o que possuíram, tudo aquilo que tocaram
Deixam todos aqueles que conheceram
e todos que amaram

Deixam suas alegrias, suas conquistas, seu sofrimento
e partem causando tormento
naqueles que Deus não escolheu levar

Tudo o que nos resta é a lembrança
a saudade e a esperança
de que um dia possamos nos reencontrar

As almas partem
e as almas deixam a tristeza em seu lugar.



Sobre problemas, vida e dias perdidos



Sempre tenho fases onde eu perco o interesse durante alguns dias (ou em casos piores, semanas) por tudo aquilo que eu gosto de fazer. É normal e quem lida comigo já deve estar acostumado com esse fato, inclusive você, caro leitor do Quase à Toa.

Nunca considerei isso um "problema" na minha vida, porque como disse, são apenas fases. Vão e voltam, às vezes sem quase ninguém perceber. A coisa toda só começa a ficar complicada quando a vida resolve unir essa minha característica pessoal à outros acontecimentos e aos seus problemas do cotidiano. O resultado é uma estagnação das ideias, das ações e da vida em si. Eu simplesmente vivo alguns dias e esses dias parecem desaparecer, não faço nada útil (ou inútil, que seja) e é como se eu estivesse perdendo aquelas datas da minha história.

Paranoico demais? Bom, talvez. Eu só resolvi tirar um tempo para pensar sobre isso, e me espantei com a forma como isso realmente tem importância para mim. Esses dias perdidos fazem falta sabe, eles deixam um buraco no calendário e um buraco maior ainda na minha mente. Não gosto dessa sensação, não gosto de deixar de viver e deixar de produzir. Então por que diabos o faço? Não sei. Se soubesse a causa dessas fases ruins, obviamente faria algo para interromper.

Tenho alguns outros problemas na bagagem, claro. Cursinho, estudos, computador quebrado, família, dinheiro, insatisfações pessoais... Aquelas coisas que a gente sempre tem. Carrego todos comigo, mas nos meus dias perdidos eles simplesmente desabam na minha frente. Desabam e me encaram, mas só ficam ali, parados como tudo e todos nesses dias.

E acredite, meu amigo, problemas que só encaram a gente são bem piores do que aqueles que se levantam e dão um tapa na nossa cara. O tapa te acorda, você reage. E digamos que o tapa dói bem menos...



Homem e animal: uma relação baseada em limites

gatinho

Atualmente é comum vermos animais domésticos sendo tratados literalmente como membros da família, muitas vezes recebendo cuidados e regalias que o próprio ser humano não recebe em algumas regiões do planeta, mas, assim como há o afeto em excesso, também existem aqueles capazes de agredir, maltratar e muitas vezes matar os animais. São dois extremos opostos, mas ambos desequilibram a relação existente entre homem e animal.

Os maus tratos contra os animais, sejam eles domésticos ou silvestres, causam revolta na maior parte da população principalmente pela característica indefesa destes pequenos seres. Agredir um animal é como espancar uma criança, em casos normais não há reação ou defesa por parte deles, o que torna a atitude ainda mais cruel. Outro ponto que causa repercussão é que, apesar de existirem leis que proíbam esses maus tratos, elas não são definitivamente cumpridas ou cobradas, há uma evidente negligência por parte dos órgãos públicos, o que transforma o problema em algo considerado "normal" nos dias atuais.

Do outro lado temos aqueles que sufocam seus bichinhos de afeto, atenção e regalias, ultrapassando aquele velho limite que define o que é animal e o que é ser humano. Essa atitude se agrava em casos onde o bicho passa a valer mais que gente, o que, além de atrapalhar o próprio ser humano, também prejudica os animais. Privá-los de seu instinto natural, cobri-los com acessórios desconfortáveis e negar a sua natureza pode gerar uma dependência ou problemas de comportamento no animais.

A chave sempre vai ser buscar o equilíbrio, tratar os animais como animais, suprir suas necessidades e demonstrar carinho, mas sem ultrapassar as duas barreiras do bom senso: aquela que define o exagerado, e aquela que define o assassino.

♥

Domingo passado fiz um simulado do meu cursinho e o tema da redação era "Como devem ser as relações entre as pessoas e seus animais de estimação", apontando o lado de extrema bajulação e o lado dos maus tratos contra os bichinhos. Assim como o artigo sobre tatuagem, também resolvi postar esse aqui no blog (mesmo achando que não ficou muito legal). Gosto de expor minhas ideias e opiniões, e ter um texto menos coloquial por aqui de vez em quando não mata ninguém né?

E vocês, o que pensam sobre a relação entre o dono e seu pet?



A espera

anahi

O tic-tac do relógio revirava-lhe o estômago, fazia suas mãos suarem e o cenho franzir-se. Fazia da sua respiração acelerada, ruído audível por qualquer um que passasse a meio metro. Mas ela tinha a sorte de estar só.

Eram minutos intermináveis, que ansiosamente ela contava um a um. Só precisava de uma resposta, e teria que esperá-la por mais algumas dessas partezinhas de hora. Ah, os pequenos minutos! Tantas vezes já os vi se transformarem em eternidades...

Só precisava da resposta, não conseguia nem se concentrar em pensamentos positivos ou orações esperançosas. Só precisava da verdade e era o que ela queria. Dentro daquela salinha fria e branca havia uma garota com o destino embaralhado nas mãos.

O médico voltou.

- Grávida.

O tic-tac do relógio não era mais um tic-tac. Era um estrondo.

Daqueles segundos que explodiram.



A morte que eu desejo

cama escura

É estranho pensar na morte como algo que se deseja, mas entre atos e fatos, um dia ela chega. Se é algo tão certo e tão inevitável, por que não imaginar a melhor maneira? Tem gente que prefere morrer de imediato, em frações de segundo, num impacto onde ninguém sentiria nada. Tem gente que quer morrer jovem, e gente que quer morrer bem velho. E claro, tem gente que não quer morrer - mas que chato seria ser eterno.

No meu caso, eu gostaria de morrer como a senhorinha muito velha de uma história que minha mãe me contou, não vou lembrar o nome dela agora, mas minha mãe costumava visitá-la a cada quinze dias representando a igreja e levando a Palavra do Senhor. Até ter a notícia de que a senhora em questão havia falecido.

Ela estava na sala com a filha, provavelmente conversando ou apenas vendo televisão, quando comentou que seus pés e mãos estavam muito gelados há um tempinho. A filha obviamente achou aquilo estranho, conferiu, "nossa mãe, que fria a senhora tá" e foi buscar um cobertor ou algo do tipo no quarto. Quando voltou na sala a mãe estava morta. Sem dor, sem sacrifício, sem esforço... O corpo simplesmente desistiu da luta, em paz.

Fiquei horas pensando naquilo como a maneira mais calma de dizer adeus para o que temos na Terra. Encarar a morte em sua tranquilidade, em sua irrevogável arte de nos fazer partir. Apenas morrer. Como um rádio com as pilhas fracas, que toca cada vez mais baixo até finalmente parar a música.

Apenas morrer...



(SH)It Girl da zona sul

dinheiro queimando burn money
Que o termo "It Girl" perdeu seu real significado, todos já sabem, mas como reagir ao se deparar com esse trecho de reportagem? É isso que me inspira a falar de um assunto que sempre comento, mas que nunca expus aqui: a ostentação sem limites de gente que não tem condição nenhuma para bancar esses luxos.

Não se espante ao ver uma garota com um visual recheado de marcas caras, e que provavelmente custou mais de 800 reais, entrando em um barraco sem reboco de 40m². Sim, não se espante. É aquela clássica situação "come pão com ovo e arrota caviar" onde a aparência que temos se torna mais importante do que aquilo que somos, e como nesses casos, a obrigação de manter a aparência e a falsa ostentação acaba passando por cima de necessidades básicas, como uma casa mais ajeitada, eletrodomésticos mais modernos e econômicos ou um estudo superior de qualidade.

Não que marcas famosas e produtos da Apple estejam destinados apenas à pessoas das classes média e alta, qualquer um que tiver o dinheiro suficiente realiza a compra, mas na vida sempre vão existir prioridades e invertê-las é prejudicial. É aquela relação necessidade x superficialidade, onde nos dias de hoje, incrivelmente, a segunda opção costuma prevalecer. E não jogo a culpa apenas nos jovens com essa mentalidade, a influência de algumas músicas, como o funk, e a falta de autoridade dos pais também são fatores responsáveis.

Vivemos em um mundo onde uma mãe não pode juntar dinheiro para comprar a casa própria porque a filha precisa de tênis de 500 reais.

Realmente precisa?



O tempo que passa, e não para

relógio de bolso

Ainda dá tempo de dar o último abraço, o último beijo, o último bom dia
Ainda dá tempo de se perder na poesia
De cantar a última música, de dançar a última valsa, de falar a última frase
De se ver em um mundo onde nada é nada
E tudo é quase

Meu sorriso pertence ao tempo
O tempo que passa, e não para
Tempo que se afoga na poça rasa
O tempo que quando a gente se dá conta, já nem tempo é mais
Do tempo que ficou para trás

Ainda dá tempo de dar o último sorriso
De correr atrás daquele amor perdido
De realizar os desejos tão oprimidos...
Ainda dá tempo de tirar os planos do papel

Antes de paralisar
A olhar os fogos no céu
E ter que dizer adeus a mais um ano
Sem ter dito adeus pra nada

Ainda dá tempo de mudar a história
Ainda dá tempo de escrever o último verso

Do tempo que passa, e não para.

♥

Já devo ter comentado por aqui a minha relação instável com os tais poemas e suas poesias, não sei, é uma porta trancada que às vezes resolvo abrir. Não é muito a minha praia, mas sair da zona de conforto de vez em quando é bom. Bom pra arte, bom pra mente, bom pra gente.



O tal dia ruim

quarto bagunçado ilustração

Sabe aqueles dias em que você acorda com o pé esquerdo e tudo dá errado? Fica até difícil explicar a probabilidade dessas coisas acontecerem com pessoas normais em dias normais, mas fazer o que, comigo acontece. E deve ser assim com mais gente por aí.

Não dá pra prever quando ele vem. Pode ser no começo do mês, pode ser lá pro dia 20 ou quem sabe no dia 31. Mas o importante é que, meu bem, uma hora o tal dia ruim chega, e aí não adianta tentar fugir, fazer reza, jogar sal na porta... A praga já pegou, e espalha que nem sarna.

Você sabe porque já acorda com os sintomas: ou bate o dedinho na quina da cama, ou queima a boca com o café, ou vai escovar os dentes e a escova inacreditavelmente cai no vaso (acredite, pode acontecer). Depois você vai se vestir e mancha alguma roupa, vai andar pela rua e pisa num presentinho que qualquer cachorro deixou, vai tentar limpar na sarjeta e um carro quase te atropela. Dá tudo errado no trabalho, na escola, na família. Se alguém te deseja bom dia já parece piada, e daquelas bem sarcásticas.

As horas vão passando e você começa achar que aquilo tudo é pegadinha, que vai sair alguém com uma câmera de trás daquela moita ali e todos vão bater palmas. Mas, meu amigo, isso nunca acontece, a praga é real.

E então você vai dormir achando que é macumba, que é o tal inferno astral, que é o apocalipse. Até que, cheio de aborrecimentos, você pega no sono. Então o novo dia amanhece lá fora, tão lindo e favorável que você nem vai se lembrar mais da tragédia que foi o dia anterior.

Bom, às vezes a gente até lembra, mas enquanto o próximo dia ruim não vem, é mais sensato aproveitar ao máximo os dias bons que a gente tem...



Reencontro no café



Ele tirou um cigarro do bolso e segurando o isqueiro ofereceu:

- Quer um?

- Eu parei de fumar, sabia?

- Sério? Fico feliz. Acho que já não consigo parar.

Ficaram em silêncio, ela remexendo a colher na xícara de café e ele acendendo o cigarro, tentando desviar daquele vento que refrescava a área externa do barzinho onde estavam.

- Mudei de emprego - ele continuou.

- Mudei de casa.

- Também mudei de casa, e de cidade.

- Nossa...

- O que foi?

- Nada, só não esperava que fosse mudar daqui - ela desviou o olhar para os pedestres na rua.

- Ah, já fiz tantas coisas que ninguém esperava, não é?

Silêncio novamente.

- Já se passaram oito anos, Ricardo.

- É... Parece que foi ontem que fechei aquela porta com as minhas malas na mão.

Ele parecia constrangido por tocar no assunto, comovido, abalado. Ela fingia não se importar, mas era a coisa certa a fazer. Ser forte. Depois de alguns segundos de mãos geladas e estômagos revirados ele ousou dizer:

- Você me faz muita falta.

- Eu sei.


♥

Não estou acostumada a escrever diálogos, mas uma vez ou outra na vida aventuro-me por essas linhas curtas de falas inacabadas. Não é difícil, porque sou capaz de criar peças completas de teatro na frente do espelho, mas acho vazio, talvez por estar acostumada demais com os tais longos parágrafos. Quem sabe.



Quando eu não consigo escrever

maquina de escrever

Me senti na obrigação de escrever hoje, e não sei porque. Acordei e abri aquela página em branco de sempre, comecei a digitar, apagar, digitar, apagar, digitar, e nada. Nem uma palavra que fizesse sentido, nem uma palavra que valesse a pena publicar.

E ainda não sei porque essa sensação de compromisso, por que escrever hoje, afinal? Por que não amanhã, segunda-feira, semana que vem? Ninguém me obrigou a escrever, mas a cobrança vem aqui de dentro, sabe? Algo dentro de mim tem a necessidade de ver essas palavras formuladas, de ver as frases e os parágrafos, e todas as outras coisas que envolvem um texto finalizado.

Isso me pressiona, e quando essa sensação de obrigação vem, as ideias travam. Então eu não consigo escrever. É, eu não consigo, e ninguém sabe como é ruim sentir-se incapaz de escrever. Bom, talvez algumas pessoas saibam: aquelas que também escrevem. Mas hoje isso não vem ao caso.

Hoje nada vem ao caso.



Rascunhos soltos



Desenhei cinco ou seis traços sobre o papel liso, branco, que aguardava ser preenchido com cores, formas e rabiscos. O lápis não obedecia as ideias que turbilhavam minha mente, a tinta não fluía, os pincéis não acompanhavam... Tudo era uma imensa perda de tempo, que eu insistia em recomeçar todos os dias.

Formavam-se figuras, pessoas, lugares, mas nunca era o que eu queria. Talvez o que eu queria fosse mesmo irreal, inalcançável, impossível de ter. Queria colocar no papel nada mais do que os meus sonhos.

Sonhos. Aquelas coisas miúdas que nos fazem criar expectativas absurdas. E eram tantos que se confundiam, se amontoavam, se transformavam em borrões de tinta quase indecifráveis. Acabava de descobrir que colocar meus sonhos no papel era quase tão difícil quanto realizá-los.

E no final das contas possuía em mãos dezenas de rascunhos e nenhuma obra final. Talvez essa seja a metáfora da minha vida...



Adeus, Outubro

calendário
Quanto mais eu envelheço mais rápido parece passar o tempo. Antes um ano era muita coisa, e era muita coisa mesmo! Os meses ficavam lá longe, quase nem dava pra ver quando seria o próximo feriado, quando seriam as próximas férias, as próximas festas. Mas alguma coisa acontece e esse tempo vai diminuindo, os dias ficam tão perto que do primeiro raiar de Julho eu já pulo pro meu aniversário em Agosto, e de Agosto a gente já pula pro final de Outubro, que agora estamos.

O que teria demais? Nada, se não fosse o fato de ser especificadamente Outubro.

Outubro me deprime, me deixa aborrecida, angustiada. É um mês feio? Não é. Mas é aquele mês que a gente toma um choque, um banho de água fria, um tapa na cara. É quando alguém chega bem no seu ouvido e diz "ei, o ano tá acabando, não percebeu?" E aí você paralisa, surta, chora. Percebe que em todos esses dez longos meses você não fez praticamente nada do que deveria ter feito. Começa a riscar do caderno os planos que não deram certo, começa a contar os dias que lhe restam para os fogos de reveillon. E chega a conclusão que 24 horas por dia já não lhe são mais suficientes.

O fim de Outubro trás aquele recado que eu tento evitar o tempo todo, mas não consigo: faltam pouco mais de 60 dias para o término de mais um ano, e eu ainda estou aqui, com as mesmas velhas promessas, com as mesmas velhas esperanças.

Como em todos os anos da minha vida.

Como em todos os Outubros que eu deixei para trás.



Tédio

menina no sofá

O tédio era tanto que ela não sabia mais o que escrever. Não tinha mais gostos, mais vontades, mais ansiedades, nem mesmo decepções. Apenas a monotonia da noite chata que inundava a sala de estar.

Jogada na cama, no chão, no sofá. Na geladeira nada, na despensa nada, nas panelas do fogão as sobras do jantar. Andar em círculos já não resolvia, ouvir música não satisfazia, o tédio ainda estava lá.

Tudo perdeu a graça, o tik tok do relógio foi suficiente para estressar. E nenhum remédio ou superstição foi capaz de curar a doença que todo mundo um dia tem: aquele tédio que vai e vem... Que vai e fica. Mas uma hora insiste em voltar.



Platônico

gif balanço

Levantou do banco como se as pernas pesassem 50 quilos, e cada passo parecia afundar no concreto quente da calçada. O sol ardia, e aquela rua desprovida de árvores não ajudava na situação. Ele já não sabia mais se transpirava de ansiedade, de medo, ou se era culpa do verão. Nos passos que pareceram quilômetros ele chegou ao seu destino.

Parou alguns metros em frente ao prédio, observou mais uma vez o relógio e ajeitou a gola da camisa. O que ela diria? Já fazia um tempo que os dois sempre conversavam na lanchonete, no ônibus, no café. Ele programava seus horários só para ter a chance de encontrá-la, e sempre encontrava. Havia praticamente decorado a agenda dela, e sempre fazia parecer que o fato de estarem sempre nos mesmos lugares era pura coincidência. Mas nunca era.

E não queria continuar só como um colega, um conhecido, queria chamá-la para sair, para jantar em um daqueles restaurantes que ele não podia pagar. Queria entregar-lhe flores e ouvi-la dizer que são lindas, dançar com ela sua música favorita, e por fim, queria vê-la sorrir ao acordar do seu lado. Há meses esperava a oportunidade certa para dar o primeiro passo, faltava coragem, talvez.

Eram quase três e meia da tarde, hora em que ela sempre saia do prédio para voltar ao trabalho, caminhava alguns quarteirões sozinha antes de chegar à empresa, era o momento perfeito para interceptá-la e fazer o convite ensaiado há tanto tempo. Ele temia uma resposta negativa, apesar de saber que não era um rapaz feio ou desengonçado, ele era no máximo inseguro demais. Meio tímido, meio bobo.

Enfim três e meia e lá estava ela deixando o edifício, com um vestido branco solto que deixava os braços e colo à mostra, os cabelos presos em um rabo de cavalo alto e o rosto iluminado pelo sol que ainda ardia mas parecia não afetá-la. Era só atravessar a rua, encontrá-la e iniciar uma conversa que terminaria em um convite. Alguns passos, algumas palavras, e lá estava ela, andando rumo ao próximo quarteirão. Ele deveria se apressar se quisesse alcança-la, mas o que estava fazendo? Não se mexeu, não tirou a mão do bolso, não disse uma só palavra. Agora já perdia de vista a imagem dela dobrando o último quarteirão.

Olhou mais uma vez para o relógio, e suspirou a frase que os conformados adotam como lema:

- Bom, não era para ser...



Contar até dez mil

stress

Um, dois, três, quatro, cinco, seis... Essa regra de respirar fundo e contar até dez nunca funcionou comigo, sabia? Não sei ao certo porque, mas contar até dez não resolve meus problemas. E a minha vida inteira eu tive que ouvir das pessoas que funcionava, que era só se acalmar, contar, e esperar a raiva passar.

Mas e se ela não passa? Nunca fui uma pessoa calma e não me orgulho disso, mas não é tão simples quanto parece reverter essa situação. Na verdade eu acho que traços da nossa personalidade são as coisas mais difíceis de mudar, então não é só vir me dizer "Jul, você precisa ser mais calma" porque não funciona. Não funciona me olhar torto quando eu fecho a cara, ou quando eu suspiro e cruzo os braços. Eu sou uma pessoa estressada, já aprendi a lidar com isso, e acredite: não foi contando até dez.

Eu aprendi a me virar com os meus aborrecimentos, ir amontoando eles num canto, ou jogar tudo pra lá. Se realmente não for algo importante no fim eu ignoro tudo como se não fizesse mesmo diferença. Só que sempre chega aquela hora de colocar tudo pra fora, aí eu recorro às minhas opções: escrever, chorar, comer ou socar um travesseiro. Não importa como, o importante é deixar o peso de tudo fluir e esvaziar meu estoque de decepções. E funciona, pelo menos tem funcionado até então.

No fundo eu nem vejo isso como um defeito, é parte de mim, é aquela parte que a gente tenta esconder um pouquinho dos outros mas que sempre vem à tona. É, eu explodo fácil, transbordo o copo d'água com a minha tempestade, mas já fui capaz de me acostumar com isso. E se no fim das contas nada der certo? Bom, aí o jeito é começar tudo de novo, mais uma vez. Um, dois, três, quatro, cinco, seis...



Pra sair do meu padrão de textos, um poeminha


Sabe quando a professora te dá aquele tema chato pra uma tarefa? Foi assim comigo uns dias atrás, precisava escrever um poema no estilo cordel e pra mim isso é extremamente difícil. Não tenho o hábito de lidar com poemas, muito menos poemas com regrinhas do tipo seis versos por estrofe, que é o caso deste. Mas, fazer o que, né?

Tive que aceitar a situação e no final das contas me surpreendi, superei uma dificuldade e acabei gostando do resultado. Ok, não ficou bom, mas ficou melhor do que eu esperava e isso já é um ótimo começo. Ah, antes que eu esqueça de citar, o tema era "a diferença é o que nos une". Mais especificadamente falando: as diferenças do Brasil.


Semelhanças

Mais preto que carvão
Ou meio pardo
Branquelo feito leite
Um pouco amarelado
O que importa a cor, os costumes, as crenças?
De que são feitas as nossas diferenças?

De tapioca e acarajé?
Do bom churrasco gaúcho,
Uma jabuticaba colhida do pé?
Do pão de queijo mineiro
Da carne seca do cangaceiro
Da peixada de tucunaré?

Que gosto tem as nossas diferenças?
Que cor, que cheiro, que tato?
Tem a vista das araucárias,
Do pantanal ou do cerrado?
Tem a brisa do rico amazonas,
Ou da caatinga de solo amarelado?

Que ritmo tem as nossas diferenças?
Que melodia, que tom, que som?
O arrasta pé do forró acelerado
O samba que deixa o exterior encantado
A quadrilha vendo a fogueira queimar
Ou a bossa nova que toca no bar?

O que difere um brasileiro
Se igual não é nem nosso modo de falar?
Quem é mais e quem é menos:
O sertanejo que olha a terra ardendo
Ou a garota de Ipanema
Que eu vejo passar?

Permita-me então dizer
Que a diferença nunca foi problema
E a diferença hoje é poema
Que eu me atrevo a escrever
Diversidades que são como alma
Alma que faz um coração, chamado Brasil, bater



Sobre preguiça, desânimo e acomodação

texto

Sempre fui uma daquelas pessoas que preferem ficar em casa quietinhas se não for valer a pena se mexer. A típica pessoa acomodada com as situações, com as coisas do jeito que estão, com as pessoas do jeito que são...

Eu tenho preguiça de mudar os meus dias, de mudar as coisas, de seguir um caminho diferente do que eu sempre sigo. E o pior disso é que na minha cabeça eu sempre crio mil ideias e mil planos pra realizar, mas nunca os coloco em prática. Sempre digo "amanhã eu faço", "amanhã eu começo", amanhã. Só que esse amanhã nunca chega.

Na verdade eu ando meio desanimada com as coisas, parece que nada dá certo, uma parte é por minha causa, que não corro atrás das coisas, mas também tem aquela parte que a gente não controla, não tenho sorte. A questão é que esse desânimo todo anda refletindo em tudo na minha vida, desde as minhas manhãs normais na escola, até os assuntos aqui do blog.

Eu sei que é só uma fase, como todas as outras que tive, mas como toda fase ruim a gente não vê a hora que passa. E por favor, que passe rápido, bem rápido.